
ASSOCIATIVISMO
Transversal ao trabalho regular, nas quatro últimas quatro empresas, onde exerceu funções, João Moisés, iniciou um “Part-Time”.
Ocorria o ano de 1970, em Novembro. Foi numa quase centenária Associação, das criadas nos fins da Monarquia por idealistas republicanos, com o objectivo de fazer face ao analfabetismo vigente.
Esse flagelo, durava em parte, porquanto ainda era combatido aí, com aulas para adultos, em horário pós laboral mas, as instituições, terão também servido para os anti monarquia, se reunirem a conspirar contra esta.
A associação designada “Associação Escolar de S. Mamede”, sendo o nome mais relevante dos fundadores, Luís Derouet, que foi deputado, Administrador Geral da Imprensa Nacional, Chefe de Redacção de vários jornais, nomeadamente o “Mundo”, “Manhã” e “Diário da Tarde”.
Muitas referências, o João Moisés, teria de fazer, mas deve destacar um dirigente, que conheceu, no cargo de Presidente da Assembleia Geral, o Dr. Darwin Maximiano de Vasconcelos, que ao tempo era Delegado do Ministério das Finanças junto do Teatro de S. Carlos, que tinha desempenhado altos cargos do Estado, possuindo várias condecorações inerentes.
A Associação, que nasceu com nome de “Escola dos Filhos do Povo”, no número 262 da Rua Saraiva de Carvalho, de seguida “Associação Escolar do Ensino Liberal”. Depois, por imposição da ditadura do Estado Novo, a palavra liberal, teve de ser banida e passou, definitivamente, a ter a designação actual.
Foi nas suas instalações, com entrada principal da Rua Alexandre Herculano, e com outra na Rua do Salitre, imediatamente, ao Largo do Rato, onde João Moisés exerceu o seu lugar, na secretaria.
Tinha falecido, o que fora até então detentor do cargo, um ex contabilista da Papelaria Fernandes, senhor Menendez, considerado insubstituível.
O João, sem formação na área ofereceu-se, sem pretensões, a dar ajuda para procurar assegurar um pouco, a que o trabalho não sofresse muita desorganização, enquanto não estivesse encontrado um substituto à altura.
Foi então, que o então Presidente da Direcção, tirou da cartola um mapa com a descrição dos trabalhos de secretaria necessários, que tinha conseguido de Menendez, de avançada idade, guardião muito cioso daquele cargo.
Disse:
- Se com isto, vês que tens jeito, ficarás com o lugar!...
João Moisés pensou e aceitou o desafio. Com o mapa orientador, atirou-se ao trabalho.
Algum tempo depois, seguindo o que ficara, instruções e a escrituração de todos os movimentos, o trabalho daquela secretaria, estava a voltar a razoável forma.
Apareceu o óbice, de verificar-se haver verba maior no cofre, a cargo do membro tesoureiro, do que o contabilizado.
Algo estava mal.
Apesar de João Moisés afirmar, que trabalhava com os documentos e por esses, tudo dava certo, depois de nova revisão, pacientemente voltou a rever tudo com o Presidente.
Este ficou convencido, finalmente, que o trabalho estava a ser conduzido, com certa eficácia.
Não se falou mais no assunto, nunca esquecendo a propensão, para investigar pormenores, ficou convencido, que alguém gostava da confusão, tinha-a como útil.
O objectivo principal da criação, daquela benemérita colectividade, visava o ensino destinado a classes menos favorecidas, pelo que havia métodos de angariar fundos. Para tal estavam as quotas dos associados, para ajudar a suprir despesas, visto que os custos para os encarregados de educação eram reduzidos. Por sua vez, estes eram obrigados a serem associados.
Porém o grande financiamento vinha das matinées dançantes das tardes de Domingo. Primeiro com um gira discos, depois com orquestras, sempre diferentes ao vivo, eram festas, uma das “Docas” do tempo.
Havia ainda, em Lisboa, a figura da “sopeira” de do “magala”. Alguns ainda passaram por lá.
Teria sido aí, onde se gerara a confusão de haver mais dinheiro, do que o escriturado. É que entrava na secretaria um papel com o valor apurado, depois de pagos todos os gastos inerentes. Estes não corresponderiam á realidade.
Havia, quem aproveitasse a desviar algum produto, prepotentemente, sem cuidados.
Ao abrir novo ano escolar veio a azáfama das inscrições, adstritas á escola onde funcionava a zona escolar. Feitas à noite, depois de ficar a necessária papelada, que João Moisés, ia coordenando, para entregar na zona.
E tudo correia sempre, metodicamente bem.
Um ano, o professor encarregue de receber as inscrições oficiais, embora de bom trato, parecia sempre macambúzio, género todos devem e ninguém paga, com montes de piada, diz:
- Afinal você é o pai desta gente toda?
É que só vejo a sua assinatura, como encarregado de educação!...
Em resposta a uma tentativa de esclarecimento, esboçou um ténue sorriso e exclamou:
- Não explique, o que é necessário está entregue, o outro factor a ter em conta, é o meu conhecimento pessoal, requisitos satisfeitos, porque conheço bem a escola, além do que, também a si pessoalmente!
Depois vinham os adultos, para quem só a inscrição, na escola era precisa para aceitação e elaboração de recibos mensais, tal como de todos os outros alunos.
Daniel Costa